Sociedade civil quer contribuir com GT do marco regulatório
Organizações e movimentos sociais que participaram mais ativamente do processo da Confecom querem participação no GT interministerial formado pelo governo. Lula quer nova lei até dezembro.
Já há um prazo estabelecido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva
para que o Grupo de Trabalho Interministerial criado para elaborar
propostas de revisão do marco regulatório nacional apresente sua
proposta: dezembro deste ano, mas ainda não se sabe o tipo de produto
final que será elaborado pelo grupo nem os conteúdos que serão
analisados. O GT fez sua primeira reunião na terça-feira (10), mesmo
dia em que Lula reuniu seus ministros para traçar os planos de fim de
governo, incluindo a questão da comunicação.
Além do prazo
presidencial, sabe-se que haverá um seminário em meados de setembro
para trocar experiências sobre regulação de mídia (radiodifusão e
telecomunicação) com outros países. E as declarações do governo tem
sido de que as diretrizes aprovadas na 1ª Conferência Nacional de
Comunicação (Confecom) serão levadas em conta no processo de elaboração
da proposta.
Não há informações sobre como e se o GT receberá
contribuições externas ao governo e quem poderá participar deste
processo de debate, embora haja a previsão no decreto que cria o Grupo
de que “entidades privadas” possam participar de reuniões temáticas.
Esta indefinição desagradou as organizações e movimentos que
participaram ativamente do processo da Confecom como representantes da
sociedade civil não-empresarial.
Ainda não está definido se o
GT vai propor um projeto único de lei geral para o setor ou se vai
sugerir que os temas sejam encaminhados separadamente. É provável que
assuntos referentes à banda larga e ao marco civil da internet não
sejam contemplados pela comissão, pois o debate em torno deles já está
acontecendo por outros caminhos. No entanto, devido à quantidade de
assuntos tratados na Confecom e ao pouco tempo que o grupo terá para
trabalhar é certo que haverá priorização de alguns temas. As
informações são da assessoria da Secretaria de Comunicação Social da
Presidência da República (Secom).
A sociedade civil, por sua
vez, realizou um seminário em Brasília, em 1º de julho, onde escolheu
cerca de 70 resoluções entre as mais de 600 aprovadas na Confecom que
consideram prioridade para o setor. Este documento da Comissão Nacional
Pró-Conferência ainda não foi divulgado, mas tem sido recorrentes
declarações de diversas entidades a favor da criação do Conselho
Nacional de Comunicação. No entanto, este não deve mesmo ser instalado
neste governo, segundo já declarou o ministro-chefe da Secom, Franklin
Martins. (Confira aqui as propostas aprovadas pela sociedade civil)
O GT criado pelo presidente Lula é bem enxuto.
Coordenado pela Casa Civil, ainda conta com o Ministério das
Comunicações, com a Advocacia-Geral da União e a Secretaria de
Comunicação da Presidência da República. Dentro da comissão, deverão
ser criados grupos técnicos para auxiliar o trabalho. Outros
ministérios do governo devem formá-los. Também poderão ser convidados
para participar de reuniões representantes de órgãos e entidades da
administração federal, estadual e municipal, e de entidades privadas.
Discussão interna
A
opção por uma comissão interministerial deixa claro que, nesse momento,
a ideia é que o governo defina internamente como encaminhar o debate
sobre o novo marco regulatório. Apesar de avaliarem positivamente a
criação do GT, organizações e movimentos sociais que participaram mais
ativamente do processo da Confecom acreditam que a sociedade civil
também deveria atuar junto com o grupo do governo.
“Nós temos
que fazer um esforço de reunir toda a sociedade civil e o próprio FNDC
(Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação) para cobrar novo
edital para que convoque a sociedade civil. É de fundamental
importância que tenhamos espaço na comissão”, reivindica o coordenador
da Federação dos Radialistas, Nascimento Silva.
A posição da
Associação Brasileira de Rádios Comunitárias (Abraço) é a de que é
necessária a criação de um marco legal, porque atualmente o que existe
é um “emaranhado de regras que mais confunde que orienta”. O
coordenador geral da entidade, José Sóter, evidencia a importância da
regulamentação do artigo 223 da Constituição, que define a
complementaridade dos sistemas público, privado e estatal de
comunicação.
Um consenso sobre a questão é que a atualização
das leis que regem a comunicação é necessária. O Código Brasileiro de
Telecomunicação é de 1962 e, na parte de telefonia e outros serviços –
como a internet –, uma atualização se deu em 1997, no governo Fernando
Henrique Cardoso, com a Lei Geral das Telecomunicações. No entanto,
isso não significa dizer que a modernização só tem um caminho.
“Tem
que ter um marco só, onde todas as regulamentações ficariam contidas
dentro dessa lei. É necessário porque se não vamos continuar à mercê de
quem tem mais poder naquele momento de negociação. Quem não tem força
fica renegado, como as rádios comunitárias”, avalia Sóter.
“A
revisão do marco regulatório não pode ser resumida a um arranjo de
mercado que defina quem vai lucrar com o quê. Ela tem que servir para
corrigir um modelo excessivamente comercial, oligopolizado,
internacionalizado e excludente”, opina Jonas Valente, integrante do
Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação Social.
Ele
considera fundamental que esses princípios sejam levados em conta,
principalmente em um momento em que há uma redução do debate público às
disputas entre os radiodifusores e as grandes empresas de
telecomunicações. “A radiodifusão emprega uma política de resistência,
para continuar existindo, da forma que consegue”, diz Valente,
avaliando o cenário desta disputa. “As empresas de telecomunicações
seguem movimentos distintos: aquelas controladas por grupos
internacionais tentam avançar sobre o mercado brasileiro, configurando
uma briga de gigantes entre Telefónica e Telmex. Tudo isso debaixo dos
olhos dos legisladores brasileiros, que deixaram o capital estrangeiro
dominar a TV por satélite, a telefonia celular e a TV a cabo, com
participação ativa da Rede Globo”, sintetiza.



