Organizações lançam manifesto a favor das cotas na TV por assinatura
Proposta de estabelecer porcentagens para conteúdo nacional independente consta do relatório sobre o PL-29 feito pelo deputador Jorge Bittar, que recebeu cópia do manifesto de representantes das entidades signatárias
O deputado recebeu cópia do manifesto de um grupo de representantes das entidades signatárias. O texto também foi disponibilizado aos membros da Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática (CCTCI) da Câmara. A CCTCI será o primeiro órgão do Congresso a avaliar o relatório do PL-29, que deve ser apresentado por Bittar até o fim do mês de março.
Dados da Ancine, apresentados no manifesto, mostram que a produção brasileira não encontra espaço na TV paga. No quarto trimestre de 2006, por exemplo, os 10 principais canais de filmes exibiram 3.264 títulos de longas-metragens. Destes, apenas 17, ou cerca de 0,5%, eram brasileiros.
No texto, as organizações questionam o argumento da campanha da ABTA de que as cotas ameaçam a liberdade de escolha do assinante, apontando que essa liberdade hoje inexiste. Da mesma forma, colocam em xeque a suposição de que as cotas elevariam o preço dos pacotes ao assinante, argumentando que é o próprio modelo de negócio das operadoras que mantém esse valor alto e faz com que a base de assinantes não cresça de forma significativa.
Entre as entidades signatárias do manifesto estão Associação Brasileira de Canais Comunitários (ABCCom), Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais (Abepec), Associação Brasileira de ONGs (ABONG), Associação Brasileira dos Produtores Independentes em Televisão (ABPI-TV), Associação Paulista de Cineastas (Apaci), Congresso Brasileiro de Cinema (CBC), Intervozes, Artigo 19, Campanha Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania, Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros (CNC), Federação Interestadual dos Trabalhadores em Radiodifusão e Televisão (Fitert), Federação Interestadual dos Trabalhadores em Telecomunicações (Fittel) e Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica do Estado de São Paulo (Sindcine).
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Veja a íntegra do manifesto:
Cotas: política legítima de
valorização e estímulo ao conteúdo nacional
A Câmara dos Deputados deve retomar em breve a
discussão sobre o Projeto de Lei 29/2007, que altera a regulamentação o setor
de TV por assinatura no país. O projeto apresenta alguns mecanismos que visam
ampliar a diversidade e a pluralidade do conteúdo veiculado através deste
serviço. Um deles, as cotas para conteúdo audiovisual nacional, é alvo de uma
agressiva campanha por parte da Associação Brasileira de TVs por Assinatura
(ABTA), que representa as empresas do setor. A ABTA tem veiculado uma peça de
propaganda na programação das suas associadas afirmando que a aprovação do
substitutivo apresentado pelo deputado federal Jorge Bittar, relator do PL, vai
acabar com a liberdade de escolha dos assinantes e aumentar o valor da
assinatura.
Mas a que liberdade eles se referem? Hoje, os assinantes das TVs por assinatura
não têm liberdade alguma em relação à programação a que assistem. Os pacotes já
vêm prontos, montados conforme os interesses comerciais da empresa, o que
obriga o espectador a adquirir vários canais que não deseja para que possa ter,
por exemplo, um canal de filmes.
O argumento do valor também não se sustenta. Dados da Agência Nacional do
Cinema (Ancine) mostram que o Brasil já tem um dos serviços de TV por
assinatura mais caros do mundo. O alto preço cobrado pelas programadoras pela
venda dos canais às empacotadoras (que comercializam os “pacotes” de canais) e
o modelo de negócio das operadoras, sustentado no alto valor da assinatura,
fazem com que a base de assinantes não cresça de forma significativa. Ao mesmo
tempo, dificultam a obtenção de uma escala maior de assinantes, criando um
círculo vicioso que mantém o preço do serviço nas alturas e impede sua acesso
pela maior parte da população. Dados divulgados pela Ancine mostram que a
penetração da TV por assinatura no país é de 8,1%, a segunda menor de toda a
América Latina.
Além disso, no Brasil, as principais operadoras (NET Serviços e Sky) são
relacionadas à principal empacotadora (NET Brasil) e à principal programadora
de canais nacionais (Globosat), que por sua vez representa os produtores do
mesmo grupo. Essa verticalização gera o controle de boa parte do mercado por um
só ator e cria um quadro de grande desequilíbrio, em que o Brasil produz mais
de 50 longas-metragens por ano, centenas de curtas, documentários e outras
produções para TV, mas não tem como exibi-las. Isto é, existe produção, mas o
grande gargalo para o conteúdo chegar às telas segue sendo a distribuição e
exibição. Dados da Ancine mostram que, no quarto trimestre de 2006, os 10
principais canais pagos de filmes exibiram 3.264 títulos de longas-metragens.
Destes, apenas 17, ou cerca de 0,5%, eram brasileiros.
É por isso que a solução da cota de tela já é adotada nas salas de cinema, em
que a regra geral prevê que cada sala exiba filmes nacionais em pelo menos 28
dias a cada ano. Além de garantir que a produção nacional complete seu ciclo de
venda e chegue a quem mais interessa (o consumidor/espectador brasileiro),
esses mecanismos garantem que os meios de comunicação brasileiros sejam
utilizados para circulação e difusão da cultura nacional. A importância da
comunicação na formação de valores e referências culturais e educativas faz com
que este setor – e o do audiovisual, em particular –, em qualquer tipo de
plataforma de transmissão, receba um tratamento legal diferenciado em todo o
mundo, sendo objetivo de regulação que vai além do campo econômico. As TVs por
assinatura são parte desse setor e, especialmente por se utilizarem de uma
outorga do Estado para operar, têm direitos e deveres para com a sociedade.
No Brasil, no entanto, a indústria da comunicação é movida prioritariamente por
interesses econômicos. Em 2006, o setor de TV por assinatura arrecadou R$ 5,13
bilhões com publicidade e assinaturas, e foi responsável pela remessa de R$ 500
milhões de reais ao exterior. São esses os interesses escondidos atrás da grita
das empresas de TV por assinatura. Nesse contexto, sem medidas positivas, como
as cotas para produção nacional e para produção independente, é muito difícil
que outro conteúdo nacional seja incorporado às programações.
A proposta do PL 29 não difere da prática de vários países da Europa e América
do Norte, como França, Alemanha, Espanha e Canadá. Não há aí nenhuma xenofobia:
o que se busca é evitar que a presença das produções estrangeiras seja
avassaladora e asfixie completamente a produção nacional. Vale notar que os
canais a cabo mais assistidos são aqueles que traduzem filmes para o português.
Portanto, medidas que aumentem o tempo de conteúdo nacional nas programações
das TVs por assinatura, ao invés de encarecer o serviço, podem até barateá-lo,
na medida em que mais programas brasileiros podem atrair novos assinantes.
Na verdade, o argumento de que as cotas não são democráticas, usado pela ABTA,
esconde os interesses dos programadores estrangeiros e das operadoras – estes
sim antidemocráticos – de definir todo o conteúdo que o espectador irá
assistir. Também nada democrática é a campanha que defende apenas os próprios
interesses e a tentativa de impedir o debate público sobre o tema, que
permitiria a expressão de opiniões diversas e contraditórias.
Considerando o exposto, nós, abaixo-assinados, acreditamos que uma política de
cotas – aliada a uma forte política de estímulo à produção nacional, como
consta do projeto – seja a fórmula ideal para fortalecer a indústria
audiovisual brasileira. A implementação dessas medidas será uma importante
vitória para o público brasileiro e para a democracia no país.
Signatários (em ordem alfabética):
ABCA - Associação Brasileira do Cinema de Animação
ABCCOM - Associação Brasileira de Canais Comunitários
Abepec – Associação Brasileira das Emissoras Públicas, Educativas e Culturais
Abong – Associação Brasileira de ONGs
ABPI-TV – Associação Brasileira dos Produtores Independentes em Televisão
Amarc – Associação Mundial de Rádios Comunitárias
Apaci – Associação Paulista de Cineastas
APTC/ABD-RS - Associação Profissional de Técnicos Cinematográficos do RS
Articulação Mulher e Mídia
Artigo 19
Associação das Entidades Usuárias do Canal Comunitário de Rio Claro - TV Cidade
Livre
Associação de Difusão Cultural de Atibaia / Difusão Cineclube
Blog Mídia em
Debate
Campanha Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania
CBC – Congresso Brasileiro de Cinema
CCLF – Centro de Cultura Luiz Freire
Ciranda
Ciranda Afro
CNC - Conselho Nacional de Cineclubes Brasileiros
Comitê da Bahia do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação
COMULHER – Comunicação e Mulher
CONRAD – Conselho Regional de Rádios Comunitárias do RS
CREC - Centro Rio-Clarense de Estudos Cinematográficos
Enecos – Executiva Nacional dos Estudantes de Comunicação Social
Federação de Cineclubes do Estado de São Paulo
FIC - Fórum Intermunicipal de Cultura
Fitert – Federação Interestadual dos Trabalhadores em Radiodifusão e Televisão
Fittel – Federação Interestadual dos Trabalhadores em Telecomunicações
Instituto Paulo Freire
Intervozes – Coletivo Brasil de Comunicação
Social
Observatório da Mulher
Rede de Mulheres em
Comunicação
Revista/Projeto Viração
Sindcine – Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica do Estado
de São Paulo
Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Distrito Federal
TV Comunitária de Brasília



