Movimento faz ato contra Globo e aciona MPF no caso BBB
Entidades feministas e da comunicação protocolaram representação pedindo ao Ministério Público uma ampliação da investigação sobre o caso. Nesta sexta, as entidades protestaram em frente à sede da emissora.
As mobilizações da sociedade civil organizada se
intensificaram esta semana no sentido de cobrar uma responsabilização da
Rede Globo pela forma como tratou a suspeita de estupro ocorrida no
programa Big Brother Brasil. Na última quinta-feira, a Rede Mulher e
Mídia e dezenas de outras organizações signatárias protocolaram uma
representação junto ao Ministério Público Federal pedindo novas
investigações sobre o caso. O documento, direcionado à Procuradoria
Regional dos Direitos do Cidadão, solicita que o MPF também faça uma
análise de outros aspectos ainda não considerado pela Procuradoria.
As
organizações entendem que, além do aspecto da estigmação das mulheres,
que já está sendo apurado pelo MPF, é preciso investigar a
responsabilidade da emissora pela ocultação de um fato que pode
constituir crime; por prejudicar as investigações da polícia; por
ocultar da vítima todas as informações sobre o que tinha acontecido
quando ela estava desacordada; e por enviar ao país uma mensagem de
permissividade diante da suspeita de estupro de uma pessoa vulnerável.
Na
representação, as entidades signatárias relacionam uma série de ações
da emissora e da direção do BBB que teriam resultado nesses
questionamentos. Entre elas, a edição da cena feita no programa de
domingo e as declarações do direito geral Boninho e do apresentador
Pedro Bial, que transformou uma suspeita de violência sexual em "caso de
amor". "Tal postura da emissora não apenas viola a dignidade da
participante como banaliza o tratamento de uma questão séria como a
violência sexual, agredindo e ofendendo todas as mulheres", diz um
trecho da representação.
O documento também destaca que, pelo
áudio da conversa da participante Monique com a produção do programa,
vazado na internet no dia 16, fica claro que ela, até aquele momento,
não tinha assistido às cenas da madrugada do dia 15. E lembra que,
somente no dia 17 de janeiro - portanto, mais de 48 horas depois do
ocorrido - os envolvidos foram ouvidos pela polícia e possíveis provas
do crime foram recolhidas. A emissora, assim, teria violado o direito da
participante saber o que tinha se passado com ela enquanto estava
desacordada e prejudicado as investigações da polícia.
As
organizações do movimento feminista solicitaram ainda um direito de
resposta coletivo em nome de todas as mulheres que se sentiram
ofendidas, agredidas e que tiveram seus direitos violados pelo
comportamento da Rede Globo. A Procuradoria Regional dos Direitos do
Cidadão em São Paulo, que já solicitou explicações à emissora, agendará
em breve uma reunião com os signatários da representação.
Ato na porta da Globo em São Paulo
Na
sexta-feira, o mobilização da sociedade civil foi em frente à sede da
emissora em São Paulo. Dezenas de feministas e ativistas pelo direito à
comunicação protestaram contra a postura da Globo, além de distribuírem
para a população um manifesto pedindo a responsabilização da emissora
pelo ocorrido. O protesto também foi contra os patrocinadores do
programa - OMO, Niely, Devassa, Guaraná Antarctica, Fiat e energético
Fusion.
"Estamos aqui para dizer que não é mais possível aceitar a
banalização da violência contra as mulheres, principalmente quando isso
ocorre num programa de televisão, de uma emissora que é concessionária
pública", disse Terezinha Vicente Ferreira, da Ciranda Internacional da
Comunicação Compartilhada. "Isso ofende a todas as mulheres e tem um
impacto enorme na formação dos valores na nossa sociedade", acrescentou.
Para as organizações, o próprio formato do BBB se alimenta da
exploração dos desejos e conflitos provocados entre os participantes,
buscando explorar situações limite para conquistar mais audiência. "É
mais um desserviço que é prestado ao país por esta emissora, que trata
seus telespectadores como "hommers simpson" e cotidianamente atua no
sentido contrário da democracia brasileira, ao criminalizar os movimento
sociais, fazer campanhas contra os quilombolas e chegar ao cúmulo de
negar a existência do racismo no Brasil", criticou o jornalista Pedro
Pomar.
Marco Ribeiro, da Federação dos Radialistas (Fitert),
lembrou que, semanalmente, um quadro do programa Zorra Total, da mesma
emissora, reforça a violência sexual contra as mulheres. "Todos os
sábados a Globo faz piada com uma personagem que é vítima de assédio
sexual no metrô, e diz ainda pra sociedade que ela deve se aproveitar
desse assédio. É um absurdo", afirmou.
Na manifestação, foi
reforçada a necessidade do Ministério das Comunicações tomar
providências em relação ao ocorrido, e do país debater imediatamente um
novo marco regulatório das comunicações, com mecanismos que contemplem
órgãos reguladores democráticos capazes de atuar rapidamente em
situações como esta.
"O Ministério das Comunicações declarou que
está analisando se a Globo, neste caso, não veiculou imagens contrárias
"à moral familiar e aos bons costumes", violando um dos aspectos da
legislação do setor. No entanto, se trata de uma questão muito mais
grave. Estamos falando da violação de direitos fundamentais, o que
mostra que o país precisa de um marco regulatório que dê conta de
enfrentar abusos cometidos em nome da liberdade de expressão", analisou
João Brant, do Intervozes - Coletivo Brasil de Comunicação Social.
Renata
Mielli, do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé,
lembrou que a Globo, através da Abert (Associação Brasileira das
Emissoras de Rádio e Televisão) é uma das maiores oponentes da
construção de um novo marco regulatório das comunicações no país, e que
historicamente distorce o conceito de regulação para passar para a
população a idéia de que o Estado está tentando censurar a mídia.
"Neste
momento, com este mesmo argumento, a Abert defende no Supremo Tribunal
Federal o fim da classificação indicativa, que é um dos poucos
mecanismos que existem para proteger os direitos das crianças e
adolescentes de conteúdos impróprios para seus desenvolvimento. Enquanto
isso, a Globo se aproveita do espaço de uma concessão pública para
violar uma série de direitos humanos", afirmou Renata.
O tamanho
da reação do público neste episódio, no entanto, mostra, na avaliação do
movimento, que alguma coisa está mudando. "A TV Globo ainda acredita no
seu poder inabalável. Mas, os tempos são outros. O caso do estupro no
BBB é o tema mais comentado na Internet, é pauta diária no noticiário de
todas as TV e rádios do país e teve que ser pautado até no Jornal Nacional.
O que era para ser mais uma cena de sexo picante, mais um escândalo de
audiência, tornou-se um debate nacional sobre a falta de limite ético na
TV. Há muito tempo a TV Globo não era pressionada pela opinião publica
com a veemência de agora. Precisamos aproveitar este momento para
avançar na luta pela regulação da mídia", concluiu Jacira Melo, do
Instituto Patrícia Galvão.
A manifestação foi convocada pela
Frente Paulista pelo Direito à Comunicação e Liberdade de Expressão
(Frentex), a Rede Mulher e Mídia e o Fórum Nacional pela Democratização
na Comunicação (FNDC), e contou com a presença de diversas organizações,
entre elas a Marcha Mundial das Mulheres, a Liga Brasileira de
Lésbicas, o Sindicato dos Bancários de São Paulo e a Associação
Brasileira de Radiodifusão Comunitária de São Paulo.
Texto de Bia Barbosa para o Observatório do Direito à Comunicação



