Governo cede mais uma vez ao lobby dos radiodifusores
O fato de as emissoras de televisão
terem que classificar os programas de acordo com a idade e o horário
adequado para seus públicos é considerado uma vitória para os movimentos
que lutam pelos direitos humanos no Brasil. Seu objetivo é evitar que
crianças e adolescentes sejam expostas a conteúdos impróprios para
sua idade.
Quarta-feira passada, dia 9,
poderia ter sido uma data histórica neste sentido, mas não foi. Este
era o prazo final para que as emissoras de televisão cumprissem a Portaria
1220/2007 do Ministério da Justiça, que determina a vinculação da
hora local às categorias de classificação para a exibição dos programas.
As emissoras de televisão
pressionaram o governo, que recuou e estendeu em noventa dias o prazo
para o cumprimento da lei.
A resistência dos canais de
TV se deve principalmente a dois fatores: o volume de dinheiro que não
estão dispostos a investir para transmitir a mesma programação em
horários diferentes, de acordo com o fuso horário do país, e a audiência
de determinados programas, que pode sofrer conseqüências diante dessas
mudanças.
Até agora, na maior parte
das Regiões Norte e Centro-Oeste do Brasil, as emissoras não consideravam
o horário local para a transmissão dos programas classificados. Assim,
um programa liberado somente para maiores de 14 anos, que só deve ir
ao ar a partir das 21h, era transmitido às 20h em muitos estados. No
Acre e mais a oeste do Amazonas, eram transmitidos às 19 horas. Com
o horário de verão, a distorção ficava ainda maior.
Não foi a primeira vez que
o governo cedeu à força dos radiodifusores. Desde que a portaria da
classificação indicativa entrou em vigor, em junho do ano passado,
o lobby dos empresários da comunicação já conseguiu mudar as regras
da classificação, adiar prazos de cumprimento da lei e até encontrar
brechas para burlá-la.
Desta vez, ganharam mais tempo
para cumprir um acordo que estava firmado desde meados do ano passado
e que foi fruto de um amplo processo de debate com organizações da
sociedade civil e empresários. O argumento das emissoras é de que
precisam de mais tempo para se adaptar às normas, mas é estranho que
elas não consigam apresentar publicamente o que fizeram nestes últimos
meses para adequar sua programação às normas.
O ministro da Justiça, Tarso
Genro, explicou que a decisão do Ministério da Justiça foi uma resposta
aos pedidos de parlamentares e de entidades representativas das emissoras
das regiões com fuso horário diferente ao de Brasília, que alegam
dificuldades financeiras das emissoras regionais na aquisição de equipamentos
e contratação de mão-de-obra para fazer as modificações técnicas
necessárias ao cumprimento do fuso horário. “Preferimos tomar uma
atitude prudente, que permita o enquadramento das emissoras às novas
regras nos próximos 90 dias do que correr o risco de causar desestruturação
às emissoras regionais”, disse o ministro, afirmando que “Este
é o prazo final e não será mais prorrogado”.
Há quem diga que o adiamento
de noventa dias está ligado à estréia da última edição do Big
Brother, da Rede Globo. Se a portaria tivesse entrado em vigor, o programa
não poderia ser veiculado ao vivo em estados com fuso-horário diferente
da capital federal, para respeitar o horário de 22h, estabelecido para
programas recomendados para maiores de 16 anos. A audiência e o lucro
da emissora certamente cairiam.
Com o adiamento, as emissoras
se comprometeram a veicular campanhas educativas para conferir maior
efetividade à classificação indicativa e de adequar, dentro do novo
prazo estabelecido, suas programações aos diferentes fusos horários.
Segundo o Ministério, Genro
determinou ao secretário Nacional de Justiça, Romeu Tuma Júnior,
que se reúna na próxima semana com representantes da Agência de Notícias
dos Direitos da Infância (ANDI), Ministério Público Federal e entidades
que defendem a classificação indicativa para apresentar os motivos
que levaram o ministério a estender o prazo das emissoras regionais.
“Sempre estivemos abertos a ouvir todos os lados envolvidos nesta
questão e vamos chegar a um denominador comum. O que não podemos permitir
é que o Estatuto da Criança e do Adolescente seja desrespeitado. As
emissoras vão ter que se adequar à questão do fuso horário”, disse
Tuma Júnior.
O estranho é que esta conversa
ocorra depois ds decisão do adiamento já tomada. O final de uma novela
que começou com um amplo processo de diálogo, que incluída organizações
da sociedade civil e os empresários da comunicação e que hoje, privilegia
nitidamente o diálogo bialteral com o segundo grupo.



