Entidades divulgam nota sobre o caso BBB
O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação e a Rede Mulher e Mídia - espaços em que o Intervozes atua - em conjunto com outras organizações feministas lançaram manifesto cobrando a responsabilização da Rede Globo no suposto estupro ocorrido no programa Big Brother Brasil 12.
O Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação
(FNDC), a Rede Mulher e Mídia e outras entidades do movimento de
mulheres divulgaram nota conjunta pedindo a responsabilização da Globo
no caso do suposto estupro no BBB. Para as organizações, são quatro os
fatos que justificam a responsabilidade da emissora:
• Ocultar um fato que pode constituir crime;
•
Prejudicar a integridade da vítima e enviar para o país uma mensagem de
permissividade diante de uma suspeita de estupro de uma pessoa
vulnerável;
• Atrapalhar as investigações de um suposto crime;
• Ocultar da vítima as informações sobre os fatos que teriam se passado com ela quando estava supostamente desacordada.
As
organizações cobram o Ministério das Comunicações e ao Ministério
Público Federal para que ajam a fim de garantir multas vultuosas e um
direito de resposta coletivo para as mulheres. Elas pedem ainda que a
população cobre os patrocinadores do programa para retirar seus
anúncios. A nota cobra do Ministério das Comunicações também a
apresentação para discussão imediata de propostas para um novo marco
regulatório das comunicações.
Veja abaixo a íntegra.
Pela imediata responsabilização da TV Globo no caso BBB
Dois
fatos muito graves ocorreram esta semana envolvendo o Big Brother
Brasil. O primeiro foi com a participante Monique, que pode ter sido
vítima de crime praticado por outro integrante do programa. O segundo
foi a absurda atitude da TV Globo frente ao ocorrido. Em relação ao
primeiro, cabe à polícia apurar e à justiça julgar, buscando ouvir os
envolvidos, garantindo que eles estejam livres de pressões e
constrangimentos. Já em relação ao segundo, é preciso denunciar a
emissora e os anunciantes que sustentam o programa, e cobrar as
autoridades do setor.
Frente a indícios de um possível abuso
sexual contra uma mulher participante de um de seus principais
programas, a Globo, além de não impedir a violência no momento em que
ela poderia estar ocorrendo, tentou escamotear o fato, depois buscou
tirar de circulação as imagens e finalmente assumiu o ocorrido sem
nomeá-lo. Na edição de domingo do programa, após todas as denúncias que
aconteciam pela internet, ela transformou a suspeita de um crime em uma
cena "de amor". O espírito da coisa foi resumido pelo próprio
apresentador Pedro Bial: “o espetáculo tem que continuar”. A atitude é
inaceitável para uma emissora que é concessionária pública há 46 anos e
representa uma agressão contra toda a sociedade brasileira.
Pelas
imagens publicadas, não é possível dizer a extensão da ação e saber se
houve estupro. A apuração é fundamental, mas o mais importante é o que o
episódio evidencia. Em primeiro lugar, a naturalização da violência
contra as mulheres, que revela mais uma vez a profundidade da cultura
machista no país. No debate público, foram inúmeras as tentativas de
atribuir à possível vítima a responsabilidade pela agressão, num
discurso ainda inacreditavelmente frequente. O próprio diretor do
programa, Boninho, negou publicamente que as imagens apontassem para
qualquer problema.
Em segundo lugar, o episódio revela o ponto a que pode chegar uma emissora em nome de
seus
interesses comerciais. A Globo fatura bilhões de reais anualmente pela
exploração de uma concessão pública, e mostra, com esse episódio, a
disposição de explorá-la sem qualquer limite nem nenhum cuidado com a
dignidade da pessoa humana. O próprio formato do programa se alimenta da
exploração dos desejos e das cizânias provocadas entre os participantes
e busca explorar situações limite para conquistar mais audiência.
Assim, o que aconteceu não é estranho ao formato do programa; ao
contrário, é exatamente consequência dele.
Em terceiro lugar,
fica evidente a ausência de mecanismos de regulação democrática capazes
de apurar e providenciar ações imediatas para lidar com as infrações
cometidas pelas emissoras. Como já vem sendo apontado há anos pelas
organizações que atuam no setor, não há hoje regras claras que definam a
responsabilidade das emissoras em casos como esse, nem tampouco
instrumentos de monitoramento e aplicação dessas regras, como um
Conselho Nacional de Comunicação ou órgãos reguladores.
Uma das
poucas regras existentes para proteger os direitos de crianças e
adolescentes – a classificação indicativa – está sendo questionada no
STF, inclusive pela Globo. A emissora, que costuma tratar qualquer forma
de regulação democrática como censura, é justamente quem agora pratica a
censura privada para esconder sua irresponsabilidade. É lamentável que
precise haver um fato como esse para que o debate sobre regulação possa
ser feito publicamente.
Frente ao ocorrido, exigimos que as Organizações Globo e a direção do BBB sejam responsabilizados, entre outros fatos, por:
• Ocultar um fato que pode constituir crime;
•
Prejudicar a integridade da vítima e enviar para o país uma mensagem de
permissividade diante de uma suspeita de estupro de uma pessoa
vulnerável;
• Atrapalhar as investigações de um suposto crime;
• Ocultar da vítima as informações sobre os fatos que teriam se passado com ela quando estava supostamente desacordada.
É
preciso garantir, no mínimo, multas vultuosas e um direito de resposta
coletivo para as mulheres, que mais uma vez tiveram sua dignidade
atingida nacionalmente pela ação e omissão da maior emissora de TV
brasileira.
Os anunciantes do BBB – OMO (Unilever), Niely Gold,
Devassa (Schincariol), Guaraná Antártica e Fusion (Ambev) e FIAT –
também devem ser entendidos como co-responsáveis, e a sociedade deve
cobrar que retirem seus anúncios do programa ou boicotá-los. Suas marcas
estão ligadas a um reality show que, para além de toda a crítica sobre
os valores que propaga à sociedade – da banalização do sexo e do consumo
de álcool à mercantilização dos corpos – , permite a violação de
direitos fundamentais.
Finalmente, é fundamental que o Ministério
das Comunicações coloque em discussão imediatamente propostas para um
novo marco regulatório das comunicações, com mecanismos que contemplem
órgãos reguladores democráticos capazes de atuar sobre essas e outras
questões.
Este é mais um caso cujas investigações não podem se
restringir à esfera privada e à conduta do participante suspeito.
Exigimos que o Poder Executivo cumpra seu papel de fiscal das
concessionárias de radiodifusão e não trate o episódio com a mesma
"naturalidade" dada pela TV Globo. Esperamos também que o Ministério
Público Federal se coloque ao lado da defesa dos direitos humanos e da
dignidade da pessoa humana e responsabilize a emissora pela forma como
agiu diante de uma questão tão séria como a violência sexual contra as
mulheres.
Brasil, 18 de janeiro de 2012
FNDC – Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação
Rede Mulher e Mídia
Articulação de Mulheres Brasileiras
Campanha pela Ética na TV/Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania
Ciranda
Coletivo Feminino Plural
Observatório da Mulher
Associação Mulheres na Comunicação - Goiânia
COMULHER Comunicação Mulher
HUMANITAS - Diretos Humanos e Cidadania
Marcha Mundial das Mulheres
Rede Feminista de Saúde Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos
SOF – Sempreviva Organização Feminista
SOS Corpo - Instituto Feminista para a Democracia
Manifesto aberto a adesões de entidades e redes. Para aderir, escreva para
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