Entidades criticam atuação de operadoras no PNBL
Organizações da sociedade civil apontam a falta de compromisso das empresas de telecomunicações na comercialização dos planos de banda larga popular. Governo promete fiscalização.
A insatisfação dos usuários com as empresas de telefonia foi o foco do
debate do seminário “Banda Larga no Brasil e os direitos dos
consumidores”, realizado em Brasília na última quinta (10). O evento,
promovido pelo Instituto de Defesa do Consumidor (Idec), reuniu
representantes de entidades da sociedade civil, usuários e do poder
público para discutir a implementação do Plano Nacional de Banda Larga
(PNBL).
As críticas dos participantes foram direcionadas
principalmente ao pacote ofertado pelas operadoras previstos nos termos
de compromisso assinados com o governo. Os pacotes são oferecidos com
velocidade de 1Mb ao custo de R$ 29 em locais com isenção tributária e
R$ 35 em locais sem isenção. Segundo uma pesquisa realizada pelo Idec
com usuários da internet, pouco mais de 60% dos entrevistados sabiam da
existência do PNBL e destes apenas metade tinha conhecimento da
comercialização dos pacotes de internet popular.
O advogado do
Idec Guilherme Varella afirmou que as operadoras não cumprem com o
acordo de ampla divulgação das condições da internet popular, um dos
requisitos para a participação das teles no plano. “Apenas quem já sabe
sobre o plano consegue achar as ofertas nos sites, e ainda assim sente
dificuldades (...) É um jogo de esconde-esconde”, disse.
Outro
aspecto apontado pela pesquisa foram as condições de acesso oferecidas
pelos pacotes. Normalmente é imposta uma franquia de downloads pelas
operadoras. No caso das empresas Oi e CTBC, o usuário que ultrapassar o
limite de 500Mb tem sua velocidade reduzida até à 128Kbps (velocida
próxima ao acesso discado).
Juliana Pereira, representante do
Departamento Nacional de Defesa do Consumidor – órgão do Ministério da
Justiça -, também mostrou preocupação com a qualidade do serviço. “Não é
novidade para ninguém que as operadoras sejam as líderes de reclamação
nos Procons”, afirmou. Ela aponta as empresas Oi, Claro e Vivo como as
três maiores responsáveis por reclamações.
Apesar dos Procons
aplicarem multas às empresas, na maioria dos casos elas preferem levar
os casos à justiça. “As operadoras pensam ser mais barato pagar um
advogado do que a reparação à seus clientes”, afirmou Juliana. O Idec
ainda aponta outros problemas encontrados no ofercimento do pacote do
PNBL, como a venda casada com outros serviços, taxas abusivas na
instalação de modens e a obrigação de fidelização do cliente.
O
secretário de Telecomunicações do Ministério das Comunicações,
Maximiliano Martinhão, afirmou que os princípios norteadores do programa
são reduzir o preço da banda larga, expandir o acesso e garantir a
qualidade do serviço. Quando defrontado com a pesquisa do Idec,
Maximiliano ponderou que as considerações serão analisadas pelo
Ministério e garantiu que ainda há tempo para que essas falhas sejam
corrigidas.
O conselheiro da Agência Nacional de
Telecomunicações (Anatel) Rodrigo Zerbone admitiu que as reclamações
existem, mas que a Agência está atenta e preocupada com a questão. “Nós
estamos adotando medidas para aproximar mais o cidadão das ações da
Agência”, comentou. Ele usou como exemplo a transparência do órgão em
relação aos assuntos tratados pelo Conselho Diretor, como a transmissão
na internet das reuniões. “Assim o cidadão pode ter acesso direto às
repostas da agência”, disse Zerbone.
Regime público e privado
Os
participantes também apontaram a manutençao do regime privado na
prestação do serviço como responsável pela fragilidade do PNBL. Para
João Brant, representante do Intervozes, o fato do serviço estar sendo
expandido não garante a qualidade do mesmo. “Hoje temos um grande
aumento do número de dispositivos móveis de telefonia e acesso à
internet com qualidade muito ruim”, criticou. Brant também usou a
ausência da oferta de banda larga na região Norte como exemplo da
necessidade de universalização do serviço.
A advogada do Idec
Veridiana Alimonti defendeu a necessidade da banda larga ser prestado em
regime público, com metas de universalização e controle de tarifas.
Esta opção garantiria que os investimentos estruturais aplicados para a
extensão do serviço de banda larga se transformasse em patrimônio
público, mostrando que é um serviço essencial à população. “Não é um
fetichismo que nós temos em tornar o regime público, mas sim um conjunto
de princípios que entendam a banda larga um direito” explicou Alimonti.
Aferição da qualidade
Também foram
feitas observações com relação à medição da qualidade da banda larga
definida pela Anatel. Fabrício Tamusiunas, gerente de projetos do
Nic.br, observou que não basta apenas medir a velocidade da internet
através de softwares instalados nos computadores dos usuários. “Há
outros problemas a serem considerados como a neutralidade de rede,
desvio e perda de pacotes de dados. É preciso que a medição seja feita
também na origem dos serviços, ou seja, nas próprias operadoras”,
sugeriu.
O processo de seleção da Entidade Aferidora da Qualidade
da banda larga foi contestado pela sociedade civil. As próprias
operadoras definiram qual instituição realizará a medição. A escolhida
foi a empresa de consultoria PriceWaterhouseCoopers em detrimento do
Nic.br, órgão ligado ao Comitê Gestor da Internet do Brasil. A
consultoria inclusive já tinha se posicionado contrariamente a medição
da qualidade proposta pela Anatel, enquanto o Nic.Br já vinha realizando
levantamentos sobre qualidade do serviço. Mas a especialista em
regulação da Anatel Suzana Rodrigues garantiu que o processo foi o mais
isento possível. Suzana afirmou que o fato das operadoras terem
escolhido a entidade que fará a medição de seus próprios serviços não
alterará em nada a fiscalização, uma vez que a Anatel ainda seria
responsável pela aplicação de sanções.
Texto de Jeronimo Calorio para o Observatório do Direito à Comunicação


