Bahia empossa Conselho Estadual de Comunicação
O governador Jaques Wagner instalou nesta terça (10/01) o Conselho de Comunicação em Salvador. Fruto da mobilização da sociedade civil, o Conselho terá como objetivo formular a política de comunicação do estado.
A terra de todos os santos vem se
destacando nos últimos anos pelo pioneirismo nos debates e propostas
relativas ao setor das comunicações. Na manhã desta terça um novo passo
foi dado em Salvador: a instalação e posse dos 27 integrantes do
primeiro Conselho Estadual de Comunicação do país.
De caráter
consultivo e deliberativo, o Conselho de Comunicação da Bahia foi criado
por lei estadual em maio do ano passado a partir de um amplo processo
de discussões. Resultante da mobilização da sociedade, o Conselho terá
uma composição paritária entre representantes do poder público, do
segmento empresarial e dos movimentos sociais e entidades populares.
Dentre
as atribuições do Conselho, destacam-se a formulação e acompanhamento
da política pública de comunicação social do estado; a elaboração do
Plano Estadual de Políticas Públicas de Comunicação Social; a defesa dos
direitos difusos e coletivos no que tange à comunicação social; e o
fomento à produção e difusão de conteúdos locais e veículos populares e
independentes.
Comunicação como direito
A
solenidade de posse dos conselheiros foi ressaltada por muitos como um
momento histórico na luta pela democratização das comunicações no estado
e no Brasil. O diretor da Central Única dos Trabalhadores (CUT) na
Bahia, Danilo Assunção, apontou que esta é uma ação que pode influenciar
movimentos semelhantes em outros estados. “Este é um pontapé para
começarmos uma política nacional em todas as regiões que favoreça a
comunicação como um direito de todos”, disse Assunção.
Para a
integrante do Centro de Estudos da Mídia Alternativa Barão de Itararé,
Julieta Palmeira, o Conselho marca a conquista de um instrumento que
efetiva a comunicação como direito pela população baiana, pois “em todos
os cantos deste estado, o cidadão poderá usufruir e incidir na política
de comunicação”, afirmou.
Segundo o representante do Intervozes
no Conselho da Bahia, Pedro Caribé, a instalação do órgão representa o
primeiro passo para suprir uma demanda reprimida da sociedade baiana.
Para ele, “o momento agora é de lutar para construir políticas realmente
públicas que abarquem a produção, distribuição e acesso à comunicação
enquanto direito”.
Liberdade de expressão
A
criação de Conselhos Estaduais foi uma das principais propostas
aprovadas na 1ª Conferência Nacional de Comunicação, em 2009. Desde
então, alguns estados sinalizaram com a possibilidade de efetivação
destes instrumentos, o que gerou uma reação de veículos da grande mídia e
de partidos conservadores acusando as propostas de terem o objetivo de
cercear a liberdade de expressão.
A instalação da primeira gestão
do Conselho da Bahia demonstra a legitimidade do instrumento,
garantindo que o não é interesse da sociedade e nem do poder público
censurar a atividade da imprensa. Para o Secretário de Comunicação do
Estado da Bahia e Presidente do Conselho Estadual, Robinson Almeida, com
a efetivação do Conselho a Bahia enterra um discurso reacionário de que
governos democráticos querem promover a censura. “Estamos mostrando que
numa democracia tão importante quanto construir obras é convocar a
sociedade a discutir todas as áreas. Se o povo discute saúde, cultura e
educação porque não discutir também comunicação?”, questiona Almeida.
O
Governador Jaques Wagner frisou durante o ato de posse dos conselheiros
a importância da comunicação para a consolidação da democracia. “Nós
que lutamos tanto pela democracia sabemos a importância deste momento,
por isso entendemos que a sociedade tem o direito de debater o que
quiser. Se não for assim, não estaremos vivendo uma democracia plena. É
preciso deixar claro para alguns setores da sociedade que nós não
queremos controlar ninguém, mas também não queremos ser controlados. O
Conselho será um espaço em que a sociedade e governo devem interagir
para ampliar a democracia na área de comunicação”, afirmou Wagner.
A
representante do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação
(FNDC), Renata Mielli, ressaltou que “é preciso garantir em cada estado a
participação popular nas políticas de comunicação. Assim, conseguimos
retirar o obstáculo do senso comum de que debater comunicação significa
censurar os meios”. Para Mielli o debate precisa ser replicado em outros
estados e também em nível nacional, com a reativação do Conselho
Nacional de Comunicação – órgão auxiliar do Congresso Nacional.
Outro
elemento apontado durante a posse do Conselho é o papel dos estados no
desenvolvimento de políticas públicas de comunicação. Presente à
solenidade, a Diretora de Políticas Públicas da Secretaria de
Comunicação do Rio Grande do Sul – estado que também já sinalizou com a
criação do Conselho de Comunicação – Cláudia Cardoso, afirma que há uma
mudança de paradigma no setor. “Conseguimos ultrapassar o debate de que
cabe a uma instância nacional promover políticas para a área das
comunicações. Agora, outros estados poderão perceber que também têm
responsabilidades em debater questões locais junto a suas populações, o
que pode gerar um grande movimento em defesa da criação de instrumentos
como os conselhos”, destaca.
Caminhos para a criação
A
Constituição da Bahia, promulgada em 1989, já previa no seu artigo 227 a
criação do Conselho como instrumento responsável por formular a
política de comunicação social do estado. Desde então, os diversos
movimentos da sociedade tentaram pautar a criação do conselho, sem
sucesso. Para Julieta Palmeira, o descaso do governo mostrava "a
concepção autoritária de Estado vigente durante anos na Bahia".
Esta
ideia começou a se alterar com a realização em 2008 da 1ª Conferência
Estadual de Comunicação da Bahia, uma atividade pioneira no país que
contou com a participação do governo e da sociedade. Já em 2009, a Bahia
ainda realizou sua etapa regional da 1ª Conferência Nacional de
Comunicação (Confecom). Nestes dois fóruns foi aprovada a criação do
Conselho Estadual de Comunicação, estabelecendo um debate público sobre a
participação social na comunicação.
A partir das conferência, o
Governo criou em 2010 um Grupo de Trabalho responsável pelo projeto de
lei de criação do Conselho. “O GT realizou uma audiência pública e ao
final chegou a uma proposta de consenso. Obviamente, ao final todas as
partes envolvidas saíram ganhando e perdendo”, lembra Pedro Caribé.
Em
seguida, o projeto de criação do Conselho foi encaminhado e aprovado na
Assembleia Legislativa em abril de 2011, em conjunto com uma polêmica
mudança do Instituto de Radiodifusão Educativa da Bahia (IDERB) da
Secretaria de Cultura para a Secretaria de Comunicação. A etapa
posterior foi a escolha dos membros do Conselho, que ocorreu de forma
democrática e participativa.
Naquele momento, a sociedade
percebeu a necessidade de unidade das entidades e criou a Frente Baiana
pelo Direito à Comunicação, que pleiteou autonomia na indicação dos
conselheiros e escolheu seus candidatos através de plenária com mais de
30 entidades. Eis que em dezembro os membros foram eleitos, inclusive
todos aqueles escolhidos pela Frente.
Os desafios
Para
as entidades da sociedade civil que compõem o Conselho, de início o
órgão já tem uma série de desafios sobre os quais se debruçar. Estes
questões foram apontados na plataforma política de lançamento da Frente
Baiana pelo Direito à Comunicação e retomados durante a solenidade de
posse do Conselho.
Certamente, um dos primeiros será a distinção
entre comunicação pública e comunicação estatal. Neste sentido, as
entidades reivindicam abertura do IRDEB para a participação social.
“Temos na Bahia um importante instrumento de comunicação que necessita
ter seu caráter público ampliado. O Conselho de Comunicação deve reunir
esforços para propor uma reformulação do Conselho Curador do IRDEB com
participação majoritária da sociedade civil”, defende Pedro Caribé.
O
representante do Intervozes afirma também que há um tabu sobre o modelo
de distribuição das verbas publicitárias do Governo do Estado. De
acordo com Caribé, “como a fonte são recursos públicos, a população
deveria saber como e pra quem está sendo repassado. Além disso, as
verbas publicitárias devem contemplar a diversidade de veículos
existentes no estado”.
A área da internet deve receber atenção
especial do Conselho de Comunicação. Para o conjunto das entidades é
tarefa do órgão em articulação com o Poder Executivo avançar na
construção de um plano estadual de banda larga que garanta internet
universal e de qualidade a todos cidadãos baianos.
Outro desafio
do Conselho será pautar o debate sobre a violação de direitos humanos
nos veículos de comunicação. A lei que regulamenta o Conselho prevê que o
órgão deve incidir diretamente nesta questão, encaminhando denúncias de
abusos e violação desses direitos às instituições competentes.
Agora
instalado e com membros empossados, a primeira ação do Conselho será
elaborar o seu regimento interno que definirá o seu funcionamento e
organização.
Texto de Paulo Victor Melo para o Observatório do Direito à Comunicação.



