15
dez-2006

Mídia e o cenário de representação da estética

A morte prematura da jovem modelo Ana Carolina Reston trouxe de volta a discussão sobre como se constroem os padrões estéticos dominantes em nossa sociedade. O tema é complexo. Passado, no entanto, o momento de exploração mórbida que acontecimentos como esse acabam por provocar – três das quatro principais revistas semanais de informação deram capa sobre o assunto na mesma semana –, creio oportuno retomar o conceito de Cenário de Representação (CR), desenvolvido por mim há mais de 10 anos, e cuja aplicação talvez ajude a avançar no entendimento da construção pública da imagem do que é feio e do que é bonito.

Se os padrões estéticos são históricos, isto é, variam ao longo do tempo, quais os fatores que provocam sua mudança? Quais os interesses que se movem de acordo com a definição desses padrões? Por que a obsessão pela magreza se dá no contexto de um sistema industrial – que comercializa a dieta, a malhação (fitness), a cirurgia plástica, a "moda", além de uma infinidade de "produtos de beleza" – e se expressa nas formas dominantes de produção cultural da mídia? De que forma a própria construção da identidade – feminina e/ou masculina – está relacionada à definição desses padrões?

O conceito de CR surgiu da necessidade de compreender as representações da realidade na mídia, em suas diferentes dimensões – política, raças, gêneros, gerações, estética etc. – assim como de compreender a crescente importância que a mídia adquiriu na construção da própria realidade no mundo contemporâneo.

O CR pode ser incluído dentro de uma ampla tradição de estudos nas ciências humanas identificada por diferentes conceitos dentro dos mais diversos contextos teóricos: vontade geral, opinião pública, representação coletiva, representações sociais, ideologia, imaginário social, mito, inconsciente político, cultura política, consenso, centro dinâmico da cultura e hegemonia, dentre outros. Entre esses, o de hegemonia é o que melhor fundamenta a idéia de CR.

Significados e valores

Raymond Williams descreveu a hegemonia como "um conjunto de práticas e expectativas", "um sistema vivido de significados e valores", "um complexo realizado de experiências, relações e atividades, com pressões e limites específicos e mutáveis". Além disso, é "sempre um processo" e é "no seu sentido mais forte, uma cultura".

Se entendermos o substantivo "cenário" como significando o espaço, o lugar onde ocorre algum fato, a ação ou parte da ação de uma prática qualquer, é possível afirmar que a hegemonia – para efeito de análise – pode ser decomposta em vários "cenários" específicos que incorporam, naturalmente, todas as suas características. Necessariamente integradas na articulação hegemônica, as diferentes dimensões do "conjunto de práticas e expectativas sobre a totalidade da vida" constituem-se em cenários/espaços próprios, com significados e valores específicos, que também se interpenetram e se superpõem.

E qual a característica fundamental desses "cenários"? Se a hegemonia é "um sistema vivido de significados e valores (…), um senso da realidade", podemos afirmar que ela se constitui e se realiza no espaço onde o sentido da vida e das coisas é construído, isto é, no espaço das representações. Desta forma, podemos também afirmar que esses "cenários" são, de fato, "cenários de representação".

Representação pode referir-se a existência de uma realidade externa aos meios através dos quais ela é representada (realidade refletida, mimética) ou pode também referir-se à constituição desta mesma realidade. Este último é o sentido que nos interessa. Nele a hegemonia é um "sistema vivido – constituído e constituidor – de significados e valores que (…) parecem confirmar-se reciprocamente" e a representação significa não só representar a realidade, mas também constituí-la.

Pressão difusa

Os CR são o espaço específico das diferentes representações da realidade, constituído e constituidor, lugar e objeto da articulação hegemônica total. Como a hegemonia, os CR não podem nunca ser singulares, estarão sempre acompanhados de um contra-CR ou de um CR alternativo. Mas o mais importante é que os CR são constituídos em processos de longo prazo, na mídia e pela mídia (sobretudo na e pela televisão).

É nesses CR que são construídas publicamente as significações relativas à política (direita/esquerda, conservador/progressista etc.), aos gêneros (masculino/feminino), às raças (branco/negro/amarelo), às gerações (novo/velho) e também à estética (feio/bonito). Temos, então, dentre outros, um Cenário de Representação da Estética, CR-E.

Um estudo das representações do feio e do bonito nos diversos conteúdos da mídia – entretenimento, notícias, publicidade – ajudaria a identificar o CR-E dominante e, certamente, conduziria a uma compreensão maior dos processos que fazem prevalecer no nosso tempo um modelo de beleza cuja busca – no limite – pode conduzir à própria morte.

E mais. Ajudaria a compreender que tragédias como a da modelo Ana Carolina Reston, com todas as suas contradições, não se explicam apenas pelo desvio individual de comportamento, mas também pelo exercício permanente da enorme pressão difusa levada a efeito por uma estrutura simbólica com poder de sanção social, criada e sustentada na e pela mídia.

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